BlogBlogs.Com.Br Senhor Tédio: 2345

Senhor Tédio

idéias desconexas e muitos erros ortográficos!

Nome:
Localização: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

7/04/2006

2345

Esté é o primeiro "conto" de uma trilogia que escreverei sobre futuro e digitalização da personalidade.



Não se comentava outra coisa nos jornais. O ano era 2345 e vários numerólogos, esotéricos e místicos afins comentavam sobre a energia especial deste ano. Para mim isso tudo não passava de uma grande babaquice. Era um ano como outro qualquer, como sempre foi, só que os números se encontravam em ordem crescente.

Não via na verdade muito o que comemorar. Como vocês poderão perceber, não sou muito otimista, muito animado, e desde que instalaram o meu mentovisor em 2343, quando fiz 18 anos, percebi que todos simplesmente não gostavam muito de quem eu realmente era.

Me lembro que sempre sonhava com o mentovisor. Era curioso em saber exatamente o que os outros pensavam de mim, queria saber todos os segredos do mundo. Teria um universo de conhecimento ao meu alcance! Perder minha individualidade era um detalhe na verdade. Como dizia o nosso líder, eu saia de um casúlo individual para entrar na grandiosidade da humanidade.

Agora que tinha o mentovisor instalado e tinha acesso imediato a todo a história do mundo, entendia que na verdade este equipamento se tratava de uma forma de controle. Não era repreendido por pensar assim, mas o seria se fizesse algo com esta informação.

Mas é importante compreender por que foi criado tal instrumento tão odioso. Tudo começou em 2197, quando a atmosfera se encontrava tão poluída que era impossível respirar. A única solução encontrada foi usar roupas isolantes com filtros de ar. Todas as casas foram lacradas. Todos os ambientes de convívio social foram extintos. Não era conveniente se expor ao ambiente externo. O emprego como conhecíamos acabou, todos que trabalhavam utilizando o mínimo de sua intelectualidade o faziam de sua casa, com computadores e internet, sempre de sua própria casa. Para os trabalhadores braçais existiam as colônias produtivas, onde os mesmos ficavam por meses, somente convivendo com iguais para esporádicamente visitarem suas famílias.

O único contato pessoal que existia era entre membros de uma mesma família que dividiam a mesma casa ou em festas especiais, onde membros distantes se visitavam. Era raro a necessidade de se sair de casa.
Quando precisávamos sair paraum ambiente externo, encontravámos a necessidade de nos comunicar esporádicamente. Para isto, cada unidade de sobrevivência pessoal tinha seu número próprio. Víamos o número de cada pessoa e digitavámos em nosso comunicador. Não exista mais a conversa entre grupos - toda a comunicação agora era entre somente duas pessoas.

Para evitar a extinção da nossa raça, e para aumentar a sociabilidade do ser humano (muitos se deprimiam e perdiam a motivação para produzir, até mesmo para viver) eram organizadas festas para que os melhores jovens de todas as raças (os mais ricos, os mais inteligentes e os mais belos) se conhecessem e procriassem. Me interesei por este assunto, principalmente por não me enquadrar como rico, inteligente ou belo (era encarado como um erro da genética, uma impossibilidade viva) e nunca ter visto uma garota. Descobri em minhas pesquisas que isto já fora feito, com algumas sutís diferenças, muito antes, quando o planeta ainda era dividido em países, em uma região chama Alemanha.

Foram todos informados que esta nova estrutura social era passageira, que a nossa fase de destruição do planeta já acabara e que agora estávamos em uma nova era, de respeito ao planeta, de valorização dos conceitos ecológicos. Todos os cientistas concordavam que com o desenvolvimento de técnologias novas, o fim do petróleo e a diminuição populacional causada pela poluição e diminuição do contato social, em menos de cem anos poderíamos novamente voltar a ter uma vida dentro dos moldes anteriores.

Cem anos se passaram e a população foi se tornando inqueta. Nada havia sido feito. As colônias produtivas continuavam poluíndo o planeta, o petróleo sintético foi desenvolvido e somente a quantidade de pessoas no planeta parou de aumentar. Grupos revoltosos com a situação começaram a se formar, primeiro nas colônias produtivas (nada mais lógico que a revolta começasse no único ambiente onde existiam verdadeiramente interação social) e depois, inspirados pelo que ocorria, jovens formavam grupos pela internet e marcavam várias demosntrações de desobediência civil sentidas somente na rede.

Como a democracía e a liberdade sempre foram tratadas como o maior bem que possuíamos, não era possível que nenhum líder tomasse alguma atitude autoritária para acabar com a revolta. Era preciso encontrar uma solução negociada com os revoltosos, era preciso compreender os anseios e ceder. Os revoltosos tinham voz e eram ouvidos tanto pelo governo, quanto pela sociedade, mesmo que a distância.

A reividicação era por maior contato social e maior respeito ao ambiente. A promessa dos cem anos tinha que ser cumprida! Como nada fora feito até então? Seria necessário esperar mais cem anos agora?

Foi então, em 2.300, que a revolta acabou. Haviam finalmente inventado um sistema de comunicação rudimentar que possibilitaria a comunicação multipontual. Era uma espécie de capacete que transformava pensamentos em ondas e as emitia. Era possível focar para quem a mensagem seria enviada, mas não era possível impedir que qualquer pessoa acessace suas ondas. Era como se todos nos falássemos em alto e bom som.

De certa forma, isto foi uma grande liberação, a quebra de um paradigma na sociedade. Todos eram transparentes, os segredos acabaram, as mentiras acabaram. Devido aos valores enraizados por milênios da democracia e da liberdade, existia uma grande aceitação da discordância e da crítica. Viviam em uma anarquía libertária respeitosa.

Não somente os segredos acabaram, mas como todos os conehcimentos se tornaram mais acessíveis. Ao acoplarem uma unidade de memória digital ao mentovisor, era possível adquirir qualquer pensamento de terceiros, qualquer conhecimento e armazená-lo para posterior uso. Com a utilização simultânea do mentovisor, da unidade de memória digital e da internet, era possível ter acesso a qualquer conhecimento já adquirido pela sociedade, a qualquer momento em qualquer local do mundo. As pessoas eram instigadas a disponibilziar sua unidade de memória digital na internet (afinal de contas, quem não as disponibilizava, não teria acesso a outras, uma desvantagem para qualquer pessoa). Desta forma, a produção intelectual da humanidade crescia exponencialmente.

Voltando agora para mim... eu era "uma pessoa que deu errado". Depois de tantas gerações praticando eugenia, eu era pequeno, fraco, feio e medíocre. Cheguei a ser estudado pela ciência e a conclusão deles era que eu era uma forma da "mãe natureza" nos lembrar que sempre existirá o fraco e o feio - eu era uma espécie de fiel da balança. Não era possível existir somente virtuosos.

Provavelmente, por ser tão diferente, desenvolvi pensamentos que também eram muito despegados da nossa sociedade. Não me animava com o contato social, tinha uma visão pessimista do mundo e não era nem um pouco ansioso pelo fim dos trajes de proteção e de um ambiente mais limpo. Sei que era egoísta, mas toda aquela parafernalha me protegia.

Ao mesmo tempo que, até certo ponto, gostava desta situação, me resentia profundamente do mentovisor. Aproveitava ao máximo todas as infinitas possibilidades de conhecimento que ele me proporcionava, mas pagava um preço muito grande por ser realmente diferente.

Passei a ter raiva e revolta em relação a nossa falsa aceitação, nossa falsa liberdade. Eram todos livres para serem iguais. Viviamos em uma grande homogeinização que controlava a vida de todos. Segundo o nosso líder, todos eram iguais pois todos tinham o mesmo conhecimento e as mesmas oportunidades - e igualdade de conhecimento e igualdade entre os homemes e ausência de repressão prévia era o que significava liberdade em 2345.

A ausência de repressão prévia me soava a maior de todas as mentiras. Por não aceitar o sistema, era repreendido, mesmo que socialmente, por todos. Por não ser um exemplo de um humano virtuoso, era colocado de lado e olhado com reprovação por todos. Realmente tinha liberdade pra pensar, pra odiar, para querer mudar - afinal de conta, como estes pensamentos eram abertos a todos, não era justo repremir-me oficialmente por pensar. A mim cabia ter auto controle e não colocar em prática minhas idéias revolucionárias. Minha impressão era que eu sempre fui o único filho de 2325 que tinha desejo por individualidade. Para mim, individualidade era liberdade e individualidade era algo inaceitável atualmente.

Alguns dias após a passagem do ano tive uma idéia simples, porém brilhante. Poderia usar o mentovisor para encontrar alguém como eu. Não era possível que a "mãe natureza" tenha me escolhido para ser o único aviso que só não pode existir o virtuoso, não é possível que só exista uma pessoa com desejo por individualidade. Gastei alguns minutos investigando na internet, tanto o presente como o passado. Foi uma busca completa e exaustiva, mas não encontrei nenhum registro. Pensei em outras alternatvas, imaginei teorias conspiratórias. Começava a me desesperar quando resolvi fazer uma busca em minha própira unidade de memória digital. Mesmo só tendo instalado-a somente dois anos atrás, existiam fatos da minha infância que poderia me lembrar naquela época e que atualmente não estão claros em minha mente.

Não encontrei nada, nenhuma resposta, nenhuma dica. Estava novamente sem saber o que fazer, como sempre foi em toda a minha vida. Tinha liberdade para pensar, mas não tinha para agir. Tinha um universo de informações para acessar, mas nenhuma chance de utilizar realmente estas informações para alterar algo em minha vida. Só me restava esperar o tempo passar, inerte, aceitando tudo que existia. Estava simplesmente desistindo.

Era o segundo dia de 2345 e eu desistia de minha busca. Sabia que este ano seria igual a todos os outros, sabia que ia tudo ser sempre desta forma. Tomei banho, fiz a barba, coloquei uma roupa para ocasiões especiais em família, escrevi uma simples nota falando pros meus pais por que me mataria.

Abri a porta, sai de casa, respirei fundo. O ar não tinha o cheiro fétido que diziam. Passaram-se cinco minutos, dez minutos, as poucas pessoas que precisavam ir ao ambiente externo me olhavam surpresas, mas de uma forma diferente. Sentia a estranheza, mas não o preconceito. Não podiam mais ler meus pensamentos e eu agora os agredia de outra forma. Após algumas horas, continuava vivo. Percebi que tudo o que era preciso era um pouco de coragem para ser diferente. Para ser eu, para ser tão único como sempre soube que era, tudo que precisava era coragem.

Assim comecei a revolução.