Eternidade Digital
Dando continuidade a 2345, escreverei mais dois "contos" sobre o futuro e sobre a digitalização do consciente.
Sempre soube que em um momento deveria tomar esta decisão. Nunca tive uma educação religiosa, nunca pensei muito em Deus e Alma. Nunca fui maniqueísta a ponto de acreditar em material x espiritual. Sequer me preocupava com a vida após a morte.
Pois agora vejo que deveria.
Depois de uma série de exames de rotina para alguém com a minha idade avançada, sabia que em cerca de 32 anos morreria. Por mais que os diagnósticos permitissem intervenções preventivas, por mais que eu tivesse formas de clonar e substituir órgãos que cessassem de funcionar, o cérebro sempre foi, e sempre será, único e insubstituível. Era ele que se deteriorava. Não passaria dos 170 anos, já tinha certeza. Senti raiva de todas as drogas, álcool e azeitonas que comi. Por que fui me meter com estas coisas que me destroem?
A proximidade da morte me perturbou pela primeira vez. Vi meu corpo se deteriorar, vi minha virilidade se ir, mas sempre tinha o porto seguro da minha consciência, das minhas idéias, das minhas memórias. Desenvolvi um apego, um orgulho, por tudo que vi, tudo que senti, tudo que aprendi e vivi.
A deterioração do corpo não me incomodava, era algo normal.
Os prazeres da carne perdiam a graça com a vida longa que todos nós levamos hoje em dia. O marasmo de mais um orgasmo, a chatice de um suculento bife mal passado, o tédio em degustar mais um pão com ovo com um sonho de sobremesa. Os prazeres carnais paravam de nos interessar. Um ovo sempre seria um ovo, o corpo de uma mulher sempre seria o corpo de uma mulher, uma vodka com tônica nunca mudaria. Com a velhice aprendi que o que fez cada uma destas experiências ser especial, ou não, sou eu. Os átomos que constituem tudo presente na esfera carnal eram sempre iguais (ovos, álcool e seios).
Esta consciência era libertadora. Era um segredo que todos sabiam, mas guardavam para si. Podíamos encarar a vida com um ar blasé, com uma falta de compromisso com os valores do século XXI.
O que me perturbava incomodava era a degeneração da memória.
"We are here to stay", frase de uma música que não saia de minha cabeça... Eu não queria esquecer do beijo roubado em um sítio, numa festa de final de ano, quando conheci o amor da minha vida, não queria esquecer do cheiro de esparadrapo no cabelo da minha primeira namorada, não queria esquecer a emoção de sentir meu pulso acertando em cheio a cara do meu adversário.
Agora tinha que decidir. A vida acabaria, isto era uma certeza. Deixaria minha mente seguir seu caminho, sozinha, sem meu controle?
Sentei-me em minha cama e relembrei minha vida. Vi que tinha muito apego a tudo que construí, e que exatamente por isso, daria uma chance a minha mente, continuar. Mesmo sem nunca ter sido pai, entendi a aflição que se passa com a fase adulta dos seus filhos. Você os cria, você os ama, tenta dividir com eles uma visão de mundo... mas chega um momento onde eles seguirão seu caminho. Sempre irão carregar um pouco de você, mas nunca serão você.
Dirigi-me ao escritório central do patrimônio público e solicitei as brochuras e formulários para a digitalização da minha mente. A taxa era subvencionada pelo Estado. Eles acreditavam que com a interação de diversas mentes digitalizadas, era possível que gênios ainda não descobertos se manifestassem pós morte. Também existia toda a questão social. Era comum ver jovens visitando a memória de parentes já mortos há longa data, resgatando valores familiares.
Li com atenção os folhetos. O sistema era basicamente este: em algum determinado momento, bem próximo da minha morte, introduziriam sondas dentro do meu cérebro e simplesmente leriam toda a minha memória. Depois transformariam a minha memória em zeros e uns, transformando-a em linguagem binária, apta para ser armazenada em computadores. Depois as informações coletadas seriam armazenadas em um mega computador, que analisaria todos os meus atos passados.
Depois de analisado, criariam um programa que me simularia, e instalariam este programa (ou seja, eu) no computador central do patrimônio público, onde poderia interagir com outros programas (ou seja, outras pessoas) instalados. Eu reencontraria amigos digitalizados, faria novas amizades, continuaria estudando, trabalhando, sentindo medo, alegria e tristeza. A simulação chegava a um requinte que possibilitava que eu amasse outros programas e me relacionasse com eles, inclusive com relações sexuais (mas sem reprodução, era impossível criar uma personalidade).
Cheguei ao capítulo sobre os termos de aceitação e políticas de privacidade. Li em um box, para destacar o conteúdo: "ATENÇÃO. Nenhum dos meus sentimentos e segredos estará disponível para outros programas do patrimônio público." Achei graça de tudo e imaginei como a minha vida podia ser boa depois da morte. Faltam 32 anos...
Sempre soube que em um momento deveria tomar esta decisão. Nunca tive uma educação religiosa, nunca pensei muito em Deus e Alma. Nunca fui maniqueísta a ponto de acreditar em material x espiritual. Sequer me preocupava com a vida após a morte.
Pois agora vejo que deveria.
Depois de uma série de exames de rotina para alguém com a minha idade avançada, sabia que em cerca de 32 anos morreria. Por mais que os diagnósticos permitissem intervenções preventivas, por mais que eu tivesse formas de clonar e substituir órgãos que cessassem de funcionar, o cérebro sempre foi, e sempre será, único e insubstituível. Era ele que se deteriorava. Não passaria dos 170 anos, já tinha certeza. Senti raiva de todas as drogas, álcool e azeitonas que comi. Por que fui me meter com estas coisas que me destroem?
A proximidade da morte me perturbou pela primeira vez. Vi meu corpo se deteriorar, vi minha virilidade se ir, mas sempre tinha o porto seguro da minha consciência, das minhas idéias, das minhas memórias. Desenvolvi um apego, um orgulho, por tudo que vi, tudo que senti, tudo que aprendi e vivi.
A deterioração do corpo não me incomodava, era algo normal.
Os prazeres da carne perdiam a graça com a vida longa que todos nós levamos hoje em dia. O marasmo de mais um orgasmo, a chatice de um suculento bife mal passado, o tédio em degustar mais um pão com ovo com um sonho de sobremesa. Os prazeres carnais paravam de nos interessar. Um ovo sempre seria um ovo, o corpo de uma mulher sempre seria o corpo de uma mulher, uma vodka com tônica nunca mudaria. Com a velhice aprendi que o que fez cada uma destas experiências ser especial, ou não, sou eu. Os átomos que constituem tudo presente na esfera carnal eram sempre iguais (ovos, álcool e seios).
Esta consciência era libertadora. Era um segredo que todos sabiam, mas guardavam para si. Podíamos encarar a vida com um ar blasé, com uma falta de compromisso com os valores do século XXI.
O que me perturbava incomodava era a degeneração da memória.
"We are here to stay", frase de uma música que não saia de minha cabeça... Eu não queria esquecer do beijo roubado em um sítio, numa festa de final de ano, quando conheci o amor da minha vida, não queria esquecer do cheiro de esparadrapo no cabelo da minha primeira namorada, não queria esquecer a emoção de sentir meu pulso acertando em cheio a cara do meu adversário.
Agora tinha que decidir. A vida acabaria, isto era uma certeza. Deixaria minha mente seguir seu caminho, sozinha, sem meu controle?
Sentei-me em minha cama e relembrei minha vida. Vi que tinha muito apego a tudo que construí, e que exatamente por isso, daria uma chance a minha mente, continuar. Mesmo sem nunca ter sido pai, entendi a aflição que se passa com a fase adulta dos seus filhos. Você os cria, você os ama, tenta dividir com eles uma visão de mundo... mas chega um momento onde eles seguirão seu caminho. Sempre irão carregar um pouco de você, mas nunca serão você.
Dirigi-me ao escritório central do patrimônio público e solicitei as brochuras e formulários para a digitalização da minha mente. A taxa era subvencionada pelo Estado. Eles acreditavam que com a interação de diversas mentes digitalizadas, era possível que gênios ainda não descobertos se manifestassem pós morte. Também existia toda a questão social. Era comum ver jovens visitando a memória de parentes já mortos há longa data, resgatando valores familiares.
Li com atenção os folhetos. O sistema era basicamente este: em algum determinado momento, bem próximo da minha morte, introduziriam sondas dentro do meu cérebro e simplesmente leriam toda a minha memória. Depois transformariam a minha memória em zeros e uns, transformando-a em linguagem binária, apta para ser armazenada em computadores. Depois as informações coletadas seriam armazenadas em um mega computador, que analisaria todos os meus atos passados.
Depois de analisado, criariam um programa que me simularia, e instalariam este programa (ou seja, eu) no computador central do patrimônio público, onde poderia interagir com outros programas (ou seja, outras pessoas) instalados. Eu reencontraria amigos digitalizados, faria novas amizades, continuaria estudando, trabalhando, sentindo medo, alegria e tristeza. A simulação chegava a um requinte que possibilitava que eu amasse outros programas e me relacionasse com eles, inclusive com relações sexuais (mas sem reprodução, era impossível criar uma personalidade).
Cheguei ao capítulo sobre os termos de aceitação e políticas de privacidade. Li em um box, para destacar o conteúdo: "ATENÇÃO. Nenhum dos meus sentimentos e segredos estará disponível para outros programas do patrimônio público." Achei graça de tudo e imaginei como a minha vida podia ser boa depois da morte. Faltam 32 anos...
