Era uma 6a feira e eu ia pela primeira vez a uma festa com minha garota. Eram 19 horas, estava me preparando pra sair do trabalho e ela me chamava no MSN:
Cherry lips diz:
Léo, taí?
Leonardo Galvão diz:
Quase que você não me encontra aqui. Tava saindo da senzala linda... Pode falar.
Cherry lips diz:
Vai ter uma pré festa hoje lá na casa de dois amigos meus. Dez da noite na Delfim Moreira, uma cobertura bacana.
Leonardo Galvão diz:
Legal... Cobertura de frente pra praia no Leblon! ainda por cima com vc. Como posso dizer não? que horas?
Cherry lips diz:
Saio de casa umas 10 horas e te pego. No máximo 10:30 to na sua casa. bjs
Leonardo Galvão diz:
bjs
Cherry lips diz:
To com saudade
Leonardo Galvão diz:
Calma, logo logo estamos juntos
Cherry lips diz:
bjs
Eu chego em casa, tomo um bom banho, como um empadão de frango bem seco e duro com arroz integral e couve carregada no alho. Assisto ao Jornal Nacional com meus pais e fico puto com seus comentários sobre Israel e Líbano, Lula e a corrupção e sobre a Fátima Bernardes e sua maquiagem. Termino de mastigar a comida, vou pro meu quarto. Ouço 3 músicas de um Cd qualquer que está no meu som enquanto separo a minha roupa.
Pego uma camisa vermelha, uma calça jeans apertada, um tênis vermelho. Uma roupa já manjada, assim como os elogios que recebo ao usá-la. Penso umas duas vezes se não é muito cedo para usar este trunfo, mas como me sinto um pouco desconfortável em conhecer pessoas novas, me escondo na segurança de alguns elogios vazios e uso meu "uniforme".
Entro no banho, reparo que os meus pentelhos tão grandes demais. Isso pode causar uma má impressão no boquete. Sempre me preocupo com isto.
Esta é a terceira vez que vou sair com a garota, sei que rola um interesse. Festa com álcool, música e provavelmente algum ex caso. Isto é um convite para sexo casual no quarto de empregada ou pra uma saída mais cedo do evento, deixando claro que nós passaremos a noite juntos. É quase uma troca - ela me cede o seu corpo e eu a deixo mostrar pros amigos como ela é moderna e emancipada.
Corto bem os pentelhos e deixo o saco quase pelado. Entro no banho, me lavo bem, sinto o anti transpirante do desodorante ainda pegajoso nas axilas. Reparo na minha barriga e sinto saudade dos meus 20 anos.
Termino o banho, me enxugo com mais presa ainda. Um pouco de desodorante, perfume no peito (como ela é baixa, perfume no peito é um ótimo truque), no pescoço e nos pulsos. coloco minha roupa e olho pro relógio. São 10:15.
Deito na cama, ligo o video game. Nem começo a jogar e toca o meu celular. Desço para a portaria, entro no táxi e me encontro com minha garota. Dou um beijo gostoso, lento e com a língua bem preguiçosa. Ela afasta o rosto de mim por alguns segundos e dá novas ordens para o taxista:
- Moço, agora vamo pra Delfin Moreira, 430, perto da Cupertino Durão.
No meio da viagem alternamos entre alguns beijos, umas passadas de mão nos peitos, nas pernas e conversas preparatórias sobre as pessoas que vou conhecer:
- O Edson e o Jonie são ótemos! São um casal lindo, muito divertidos.
Ela não me disse nada que íamos para a casa de um casal Gay. Olho pelo retrovisor e vejo o taxista com uma cara de desagrado. Sorte dele que pode ser transparente. Dou um sorriso, passo a mão de leve na orelha dela e respondo:
- Edson e Jonie? Você não me disse que era um casal. Agora está tudo mais interessante ainda linda. Pré festa em uma cobertura de frente pra praia, no Leblon, na casa de um casal gay!
- O Edson é funcionário público, bem careta, muito sério. O Jonie é arquiteto, meio afetado mesmo...
- Engraçado né? todo casal que eu conheço é assim. Um cara sério e sem estilo, que nem parece que é bicha e um outro meio afeminado e estiloso, que só de espirrar, você já sabe que ele não curte mulher. Mas me diz uma coisa. O nome do cara é Jonie? Que porra é essa?
- Claro que não é Jonie. É João Augusto. João Augusto Furlan. A Família dele tem algo com a Sádia e...
Chegamos no prédio. Pago 10 reais, peço dois pra ela. Não vou dar mole de ficar sustentando mulher né? Ela que complete o táxi. Nem fecho a porta direito e ela continua:
- ...e tem muito dinheiro. Foi estudar na França e na Suécia para ser arquiteto. Aí voltou pra cá com 24 anos, abriu um escritório lá em Ipanema, atendendo os amiguinhos da família. Um dia conheceu o Edson, que estava fiscalizando uma obra. Se apaixonaram na hora.
- Se apaixonaram na hora ou fuderam lá na obra mesmo linda?
- Hahahaha, Aí Léo, que grosso...
Como eu me irritei com aquela risada, ela saiu muito nasalada e o "que grosso" foi longo, com o final meio desafinado. A imagem que me veio a cabeça foi do Chewbaca falando português.
Entramos no prédio, reparo nas obras de arte no corredor. Nosso nome já estava na porta e subimos direto.
- Gostei destes caras! Esperar olhando pra porteiro é um saco. Você não pode falar com naturalidade que estes putos prestam atenção em tudo que você fala.
- O Jonie é muito sofisticado mesmo né Léo?
Mais um comentário que me irritou. Ele não é sofisticado. Ele é prático. Sem contar que pelo que ela me explicou, quem deve ter tido esta idéia foi o tal do Edson. Este cara sim devia ser prático.
Pegamos o elevador, ela aperta o 10. Vira pro espelho, passa a mão no cabelo. Eu viro junto e faço umas caras e bocas, arrumando o cabelo também. Desentorto o meu óculos, acerto a gola da camisa e abraço a minha companheira.
Chegamos ao décimo andar e a porta já está aberta. Uma música leve e pentelha, que me lembrava trilha sonora de Amelie Poulain tocavam ao fundo. Não tem uma viva alma para nos receber. Imagino que estão todos na varanda ou em alguma área externa.
Vamos entrando na casa. Tem uma bela iluminação, não é direta, não vem do teto para o chão, mas também não é escura ou muito direcionada. A iluminação dirige o olhar para determinadas áreas da casa mas sem deixar o ambiente escuro. Os pontos que mais chamam a atenção são um quadro de santa, uma armoire antigo e uma pequena escultura de estilo clássico.
Reparei melhor na escultura e percebi que é de um homem, girando o torso, com um pau muito grande caído para a esquerda. Senti-me meio estranho em reparar o pau da estatua, mas ele era realmente grande, e estava muito torto.
Olho para a minha direita e vejo o lavabo. Reparo na maçaneta. É em formato de uma glande. Entrou nele já imaginando que podia rolar alguma sacanagem antes de entrarmos na festa. Minha companhia fica no lado de fora. Abro a calça, faço força pra fazer um xixi.
Antes de lavar as mãos e reparo nas toalhas, com cenas de Kama Sutra entre homens. Ao pegar no sabonete, sinto algo estranho. Olho para a minha mão e confirmo o que já imaginava. O sabonete também tinha formato de caralho. Saí do lavabo e comecei a reparar nos detalhes da casa. TUDO tinha uma conotação com pau. Só mesmo a porra do Armoire e o quadro de santa que não. Comento isso com minha companhia:
- O que fez você achar o Jonie sofisticado? Foi o sabonete em forma de piru ou a maçaneta em forma de caralho?
- Aí Léo, você é preconceituoso? Olha que lindo aquele armário antigo. E aquele quadro da Santa Edwiges? Ele é de 1756!
- É linda, mas tirando isso, tudo aqui tem forma de pau. Deve ter um puf em forma de pau em algum lugar. Os canudos devem ter forma de pau, as facas devem ter forma de pau, o papel higiênico deve ter vários pauzinhos desenhados. A roupa de cama deve ter uma estampa de paus e bundas. Isto não é sofisticado, isto é baixo.
- Não Léo, tem todo um high low nisto. Imagina só, um jogo de cama de algodão egípcio de 3.000 fios, com vários pirus! Não é genial? Eu acho isto quase artístico!
Que raiva que me deu a expressão dos olhos daminha companhia ao falar "acho isto quase artístico". Eu vi que ela chegou a esta conclusão naquele exato momento e se sentiu a pessoa mais inteligente do mundo.
Subimos uma escada e chegamos na cobertura realmente dita. Havia umas 15 pessoas, vários casais de gays e lésbicas, alguns homens sozinhos, pouquíssimas mulheres sozinhas. Reparei que nos com meus 27 anos de idade, era provavelmente um dos mais jovens no lugar.
Uma pessoa sai do meio de um grupo, com uma taça de champagne na mão, soltando quatro gritos estéricos de "Você veio, eu sabia". Dá um abraço na minha garota e um tapa na bunda. Faz alguns comentários sobre a roupa dela, sobre a última vez que se encontraram e se cala.
Olha pra mim da cabeça aos pés, não dirige a palavra a mim. Olha de volta para minha companhia e fala:
- Nossa, onde você foi encontrar um ninfeto assim menina? Olha só que carinha linda, que óculos lindo... e esta barbinha! Tá aprovadíssimo! Adorei também esta roupa dele. ele fica bonito com esta camisa vermelha e com esta calça apertadinha. Lindão.
Eu já sabia que esta pessoa deveria ser o tal do Jonie, sofisticado e com fixação fálica. Resolvi me apresentar.
- Olá, eu sou o Leo. Você é o Edson né?
- hahahahaahahah. Errou menino. Eu sou o Jonie, muito prazer.
Gostei do respeito que ele teve por mim. Não ofereceu o rosto para dar beijinhos. Me estendeu a mão e deu um aperto de mão forte. Olhou para trás e gritou:
- Edson, venha cá, vem ver que menino lindo a nossa amiga tá saindo.
Se junta ao nosso grupo um homem de uns 45 anos, sério, meio moreno, mas com feições de índio. Tem um cabelo meio raspado nos lados, usa óculos quadrados com uma armação grossa e tem uns dentes grandes, brancos, muito alinhados. É um pouco forte.
- Olá linda. Saudades de você. Olá, tudo bom, eu sou o Edson. Qual é o seu nome?
- Leonardo. Prazer Edson.
- Olá Leonardo. Seja bem vindo. Ta vendo aquela bancada de granito perto da piscina? Tem uma geladerinha. Lá tem Scotch, Vodka, Cerveja e Proseco.
Assim que ele termina a frase, eu peço licença, vou a tal bancada de granito e preparo uma vodka com tônica. Para não parecer mal educado pego o Proseco para minha companheira.
Quando chego com os drinks, reparo que tem um cachorro com o casal. É um galgo bonito, cinza. Gosto do porte deste tipo de cachorro. Reparo bem no Jonie e chego a conclusão que com certeza, o cachorro é mais sofisticado que o Jonie. Eu chego com os copos no grupo e entrego o Proseco para minha acompanhante, que me dá um lindo sorriso. Dou um gole na minha vodka e sinto quase que um soco quando o álcool bate no meu estômago. Pergunto o nome do cachorro para o Jonie.
- Está e á Fátima.
- Vocês deram este nome para agredir nossa senhora?
- Não, é uma homenagem a minha mãe. Ela sempre gostou de chocar os outros se fazendo de velha puta. Olha só este truque:
Ele pega um pequeno travesseiro felpudo, roda em volta do cachorro. Fátima dá uns pulos, abana o rabo. Depois Jonie larga o travesseiro no chão. O cachorro começa a esfregar a buceta no travesseiro. Faz este movimento por uns segundos para, olha pra cara do dono e late. Ele dá um biscoito guardado no bolso felicitando pela esperteza do cão.
- Fui o Edson que a treinou. Ele adora minha mãe.
Edson, Jonie e a minha acompanhante caem na gargalhada. Eu acho isso um pouco triste, mas sei que não posso fazer cara de bunda para estranhos. Do uma risada forçada e enfio minha cara no copo de vodka. Assim eles não vão perceber que eu não acho graça nenhuma.
Eu deixo os três em paz, vou pra varando. Fico um tempo lá, fumando um cigarro, bebendo uma Vodka, aproveitando a vista. Troco algumas palavras com alguns casais. São todos simpáticos, alguns muito educados, outros mais espalhafatosos, mas todos são um pouco mais interessantes que a média das pessoas que se encontra em festas. Fico surpreso como me recebem bem e ver como são simpáticos.
Olho na outra ponta da cobertura e percebo que minha acompanhante já está com uma garrafa de proseco na mão, assim como Jonie, e ambos vão bebendo freneticamente em suas taças. Eu podia pedir pra ela diminuir o rítimo e não ficar tão bêbada, tão cedo. Como eu sei que esta é a última vez que sairemos juntos, eu deixo ela se embebedar a vontade. Pra que deixar a impressão de chato controlador?
Já é meia noite e a nossa pré festa já está com os minutos contados. No máximo em meia hora devemos partir. Minha acompanhante foi se deitar por que estava muito bêbada. Jonie e Edson chamaram um "pessoal" pra dentro da casa. Eles tinham Skank de Hannover e fomos todos fumar.
Eu nunca fui muito fã de maconha, sempre achei que me deixava mais chato, mais sonolento e broxa. Como se tratava de Skank de Hannover, eu resolvi me juntar ao grupo.
Voltamos à sala com o Armoire, o quadro de Santa Edwiges de 1756 e estátua de pau grande e torto. são 6 pessoas e o Jonie acende 2 becks gigantes, com o tal Skank de Hannover.
Estou sentado no sofá, com um copo de vodka em uma mão e um beck enorme na outra. Minha companhia, que já não erá lá grandes coisas, esta desmaiada na cama dos meus anfitriões. Acabo de saber que ela vomitou antes de dormir.
Uma mulher, que é tão gostosa quanto rampeira, senta no meu lado, me olha com cara de tesão e enrola os cabelos vagarosamente empinando os peitos. É lindo ver aquela camisa de alcinha e aqueles mamilos se insinuando para mim. Como eu queria ser uma daquelas moléculas de algodão, me esfregando em cada pedacinho daquele mamilo.
Ela fala algumas merdas que não me interessavam. Não sei o que ela viu em mim. Ou achou que eu era mais um dos vários ricos no ambiente, ou percebeu que eu era o único que conseguiria ficar de pau duro e dar um trato nela. De qualquer forma, resolvi ficar com a minha vodka e a minha maconha. Falei que estava com a amiga dela, dei um beijo safado no pescoço e fui ao banheiro mais uma vez.
Chapamos por 20 minutos. Acordei minha acompanhante e fomos pra rua. Teríamos que andar somente 3 quarteirões, até uma casa onde a festa já ocorria.
Saímos para a festa a pé. Eu reparo que se formam dois grupos. Os bichas low profile (onde eu e minha acompanhante ressuscitada nos encontrávamos), que conversam normalmente e os bichas afetados, que fazem barulho, falam alto, e desmunhecam sem parar. Eu olho em volta e vejo o olhar de desprezo e de desagrado que eles causam em todos que cruzam na rua. Levanto meu olhar e vejo pessoas na janela tirando satisfação do que ocorre fora de suas casas.
Senti uma inveja enorme deles. Queria ser desagradável, queria sentir na pele preconceito. Acelerei o passo, puxei minha companhia e cheguei mais perto deles. Provavelmente por causa do Skank de Hannover, arrisquei umas desmunhecadas de leve e tentei me sentir alvo de preconceito também. Não achei divertido e fiquei na minha.
Chegamos na nossa festa. Tocava Madonna.
Dancei com minha acompanhante duas músicas, bebi mais uma vodka. Passei mal, vomitei, deitei na cama e dormi. Acordei as 6 da manhã, com ela abraçada. Cada respiração que dava era um bafo de cana que me atacava, mas como o sorriso dela era tão calmo e lindo, fiquei imóvel por um bom tempo.
Levantei-me, dei uma bela mijada. Passei pasta de dentes na boca pra tirar o ranço do vômito. Acordei minha acompanhante e voltamos pra casa dela.
Fudemos que foi uma beleza. Gozar é bom pra enxaqueca, ela me disse.